Por Paula Silveira

Autores: Raphael Lemos

Advogado, graduado pelo Mackenzie, 

especialista em direito imaterial 

e propriedade intelectual, 

praticante de naturismo desde 2025

@fbrn_oficial

 

Há escolhas que não se explicam apenas pela razão; elas nascem de um incômodo silencioso, de uma busca por pertencimento e, sobretudo, por verdade. O naturismo, para mim, não surgiu como um estilo de vida repentino, mas como um caminho natural — quase inevitável — de reconexão comigo mesmo. Ao longo da minha trajetória, fui percebendo que havia uma distância entre quem eu era e quem o mundo esperava que eu fosse. O naturismo, então, apareceu como uma ponte entre esses dois extremos.

Ser naturista, para mim, é, antes de tudo, um exercício profundo de autoaceitação. Cresci em uma sociedade que impõe padrões rígidos de comportamento, aparência e identidade. Como homem homossexual, muitas vezes me vi enquadrado em estereótipos carregados de preconceito, como se minha existência precisasse ser justificada ou, pior, corrigida. Esse julgamento constante cria marcas internas que não são visíveis, mas profundamente sentidas. O naturismo foi um dos caminhos que encontrei para ressignificar essas marcas.

Ao me despir, percebi que não estava apenas retirando roupas, mas também camadas de insegurança, medo e vergonha. A nudez, nesse contexto, não é exposição — é libertação. É o reconhecimento de que o corpo, em sua forma mais natural, não deve ser motivo de constrangimento, mas de aceitação. Em um ambiente naturista, não há espaço para rótulos que diminuem ou segregam. Há, sim, um convite à igualdade e ao respeito.

Outro aspecto fundamental dessa jornada foi a reconciliação com o meu próprio corpo. Vivemos em uma cultura que glorifica padrões estéticos quase inalcançáveis, onde a perfeição física é constantemente vendida como requisito para aceitação social. Durante muito tempo, senti que não pertencia — nem à sociedade em geral, nem mesmo a determinados grupos dentro da própria comunidade LGBTQIA+. O naturismo, porém, me ensinou que o corpo não precisa ser perfeito para ser digno de respeito. Ele precisa apenas ser verdadeiro.

Nesse ambiente, corpos são apenas corpos. Não há hierarquia estética, não há competição silenciosa, não há julgamento. Essa experiência tem um efeito profundamente transformador, pois desloca o olhar do exterior para o interior. Passamos a valorizar não o que aparentamos, mas quem somos. E isso, por si só, já representa um ato de resistência contra padrões excludentes.

Além da dimensão pessoal, o naturismo também despertou em mim uma consciência mais ampla sobre o mundo ao meu redor. A conexão com a natureza, por exemplo, tornou-se mais intensa e significativa. Estar em contato direto com o ambiente natural, sem barreiras artificiais, gera uma sensação de pertencimento que é difícil de descrever. É como se, naquele momento, todas as divisões impostas pela sociedade desaparecessem, e restasse apenas o essencial: o ser humano em harmonia com o meio em que vive.

Essa conexão também traz consigo um senso de responsabilidade. O respeito à natureza deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma prática concreta. Cuidar do ambiente, preservar espaços naturais e agir de forma sustentável tornam-se extensões naturais dessa vivência. O naturismo, portanto, não é apenas sobre o corpo — é também sobre o mundo que habitamos.

Outro pilar importante do naturismo, na minha experiência, é o respeito ao próximo. Em um espaço onde todos estão igualmente despidos, não há espaço para superioridade ou discriminação. As diferenças continuam existindo, mas deixam de ser motivo de separação. Pelo contrário, tornam-se elementos de diversidade que enriquecem a convivência. Esse ambiente favorece uma cultura de empatia, onde o outro é visto como um igual, e não como alguém a ser julgado.

Nesse sentido, o naturismo também se apresenta como uma forma de combate ao preconceito. Ao promover a igualdade e o respeito, ele desafia estruturas sociais que ainda insistem em excluir e marginalizar. Para mim, praticar o naturismo é também uma forma de posicionamento — uma maneira de dizer que não aceito padrões que excluem, nem discursos que diminuem. É uma forma de resistência silenciosa, mas profundamente significativa.

Não pretendo afirmar que o naturismo resolve todas as questões internas ou sociais. Ele não elimina completamente as inseguranças, nem transforma instantaneamente a realidade ao nosso redor. No entanto, ele oferece ferramentas importantes para lidar com esses desafios. Ele cria um espaço onde é possível experimentar, ainda que temporariamente, uma forma mais autêntica de existir.

Fazer parte desse movimento é, para mim, também uma forma de contribuição. Ainda que pequena, acredito que cada atitude conta. Ao viver de forma mais consciente, ao respeitar o outro e ao promover a aceitação, estou, de alguma forma, colaborando para a construção de um ambiente mais inclusivo. Não se trata de grandes gestos, mas de pequenas ações consistentes.

Por fim, o naturismo em mim é, acima de tudo, um processo contínuo. Não é um ponto de chegada, mas um caminho em constante construção. A cada experiência, a cada encontro, a cada momento de reflexão, descubro novas camadas de entendimento sobre mim mesmo e sobre o mundo. E é justamente essa possibilidade de evolução que torna o naturismo tão significativo na minha vida.

Se há algo que posso afirmar com segurança, é que o naturismo me ensinou a olhar para mim com mais gentileza. E, a partir disso, passei a olhar para o outro com mais respeito. Talvez seja esse o seu maior valor: lembrar-nos de que, por trás de todas as diferenças, somos, essencialmente, humanos.

 

*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020.É naturista desde 1997 e é integrante da CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, na Colômbia em 2022 e no Equador em 2020. 

 

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