Por Paula Silveira*

Autor: Pedro Nicolas Brito, 

Acadêmico de Medicina, 

pesquisador na área de saúde mental

Praticante de naturismo desde 2026

@fbrn_oficial

 

Há uma contradição curiosa na formação médica: somos treinados, desde cedo, a olhar corpos com naturalidade, mas quase nunca somos convidados a pensar com profundidade sobre o que significa viver dentro de um. 

Na anatomia, o corpo aparece aberto, nomeado, dividido em órgãos, vasos, nervos, planos e camadas. Na semiologia, ele reaparece como superfície de sinais: pele, mucosas, ausculta, palpação, reflexos, dor, edema, lesões, sopros, assimetrias. No hospital, costuma entrar em cena quando algo falhou: febre, falta de ar, sangramento, dor, emagrecimento, fragilidade. 

Com o tempo, aprendemos a olhar para esse corpo com técnica. E isso é necessário. Um médico que não sabe examinar bem um corpo não cuida bem de uma pessoa. Mas existe um risco silencioso nesse aprendizado: o de reduzir o corpo a um objeto de investigação, como se a pessoa estivesse em algum lugar atrás dele, e não exatamente ali, existindo por meio dele. 

Foi por isso que minha primeira experiência naturista me marcou tanto. Não porque tenha sido exótica, escandalosa ou transgressora. Pelo contrário. O que mais me chamou atenção foi a simplicidade. Passei um fim de semana em um sítio em Atibaia, em meio à mata, à cachoeira, à piscina, a conversas tranquilas e a pessoas vivendo o próprio corpo com uma naturalidade que raramente encontrei em outros espaços. Não havia ali o corpo hospitalar, nem o corpo publicitário, nem o corpo performático das redes sociais. Havia corpos reais ocupando um espaço real. E, como estudante de medicina, isso me pareceu quase uma aula paralela. 

Na faculdade, aprendi a observar o corpo do outro em busca de alterações. No naturismo, vivi outra experiência: estar diante do corpo sem que ele precisasse estar errado, doente, inadequado ou em exibição. O corpo não estava ali para ser corrigido, interpretado, desejado, temido ou comparado. Estava ali como condição básica da presença humana. 

No hospital, o corpo frequentemente aparece mediado por uma assimetria. De um lado, alguém vulnerável, adoecido, exposto, muitas vezes com medo. Do outro, profissionais com autorização técnica para tocar, examinar, perguntar e decidir. Mesmo quando há respeito, cuidado e consentimento, existe uma diferença de posição. O paciente se despe porque precisa. O médico examina porque deve. A nudez, nesse contexto, está quase sempre ligada à necessidade, à fragilidade ou à investigação. No naturismo, encontrei outra gramática corporal. A exposição não vinha da doença, da obrigação ou da autoridade médica. Vinha de uma escolha compartilhada. Não havia um corpo colocado sob inspeção e outro autorizado a inspecionar. Havia convivência. 

 

A medicina, apesar de lidar o tempo todo com corpos, nem sempre nos ensina a enxergar a dimensão existencial do corpo. Ela nos ensina a perguntar onde dói, quando começou, se irradia, se melhora ou piora, se há febre, perda de peso, sangramento, alteração intestinal, falta de ar. Todas essas perguntas são essenciais. Mas há outras que raramente cabem no tempo curto de uma consulta ou na lógica objetiva de uma enfermaria: como essa pessoa se sente dentro do próprio corpo? Que relação construiu com a própria pele, com a aparência, com a sexualidade, com o envelhecimento, com suas marcas e limitações? 

Essas perguntas não são secundárias. Para muita gente, elas fazem parte do centro do sofrimento. Boa parte da dor humana passa pelo corpo mesmo quando não começa nele. Vergonha, inadequação, comparação, envelhecimento, rejeição, desejo, doença, perda de autonomia e medo do olhar alheio se organizam corporalmente. O corpo é o lugar onde a vida psíquica aparece para o mundo; é também onde o mundo deixa marcas na vida psíquica. 

Talvez por isso a experiência naturista tenha me parecido tão relevante. Ela não me ensinou algo sobre anatomia, fisiologia ou patologia. Ensinou algo sobre presença. Sobre o quanto o corpo pode ser vivido de maneira menos defensiva quando o ambiente não exige dele uma performance constante. Isso pode parecer pouco, mas talvez seja justamente o que há de mais raro. 

Na medicina, falamos muito sobre saúde, mas muitas vezes herdamos uma visão excessivamente corretiva: detectar desvios, reduzir riscos, intervir, prevenir, otimizar. Essa dimensão é indispensável, mas incompleta. Existe também uma saúde que tem a ver com reconciliação: a possibilidade de viver no corpo sem tratá-lo o tempo inteiro como inimigo, obstáculo ou vitrine. 

Não quero romantizar o naturismo nem transformá-lo em prescrição universal. Cada pessoa tem sua história, seus limites, seus traumas, seus pudores e seu tempo. O que foi libertador para alguém pode ser desconfortável para outro. O corpo é íntimo demais para caber em fórmulas. Mas justamente por isso me parece importante levar essa experiência a sério. Ela cria um ambiente em que o corpo pode ser vivido fora de alguns dos roteiros mais comuns da sociedade: fora do roteiro médico, em que o corpo aparece como caso; fora do roteiro publicitário, em que aparece como produto; fora do roteiro moralista, em que aparece como vergonha; e fora do roteiro digital, em que aparece como imagem. 

 

No fim de semana em Atibaia, encontrei uma relação mais simples (e difícil) com o corpo. Simples porque não exigia grandes explicações. Difícil porque estamos pouco acostumados a essa simplicidade. Estamos acostumados a monitorar como aparecemos, como somos percebidos, como nosso corpo se compara, como nossa aparência será interpretada. Abrir mão dessa vigilância, ainda que por algumas horas, não é banal. 

Para mim, foi uma experiência de amadurecimento. Não no sentido de “superar a vergonha” como quem vence uma prova. Foi mais parecido com perceber que talvez a maturidade corporal não consista em finalmente atingir um corpo ideal, mas em construir uma relação menos agressiva com o corpo possível: o corpo real, o corpo de hoje, o corpo que muda, o corpo que carrega história. 

Quando entrei na faculdade, eu imaginava que conhecer profundamente o corpo humano significaria dominar sua anatomia, fisiologia, mecanismos de adoecimento e possibilidades de tratamento. Ainda acho isso verdadeiro. Mas hoje me parece insuficiente. Conhecer o corpo humano também exige compreender o modo como as pessoas sofrem por causa dele, se defendem por meio dele, constroem identidade nele e buscam, às vezes por anos, uma forma menos dolorosa de habitá-lo. O naturismo, inesperadamente, me ofereceu uma pequena janela para isso. Não como teoria, aula formal ou capítulo de livro, mas como experiência vivida: um fim de semana em que o corpo deixou de ser projeto, caso, imagem ou problema, e pôde apenas fazer parte da vida. 

Talvez seja essa a principal lição que levo como médico em formação. Antes de aprender a corrigir corpos, precisamos aprender a respeitá-los. Antes de interpretar seus sinais, precisamos lembrar que eles pertencem a alguém. E antes de perguntar o que há de errado com um corpo, talvez seja preciso admitir uma possibilidade mais simples e mais esquecida: às vezes, não há nada de errado. Há apenas um ser humano tentando existir com menos medo dentro da própria pele. 

*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020. É naturista desde 1997 e é representa o Brasil na CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.