Por Paula Silveira*

Autor: Fabrizio Martins Tavoni é 

Doutorando em Educação na Unicamp, 

Mestre em Ciência Política pela UFSCar, 

Graduação em Ciências Sociais pela UEL

 e é naturista. 

@fbrn_oficial

 

Imagine um ser humano nu diante do mar. A luz toca a pele da mesma forma como toca a areia. O vento não distingue o corpo da paisagem. Por alguns segundos, a fronteira entre o que é humano e o que é natureza simplesmente desaparece… Assim como foi um dia… Assim como deveria ser desde sempre… por milênios.

Quem já teve essa experiência sabe o quanto ela é forte. Há algo ali que vai além do conforto físico ou da liberdade de não usar roupa. Há uma sensação estranha e amável de pertencimento, como se por um momento, você estivesse exatamente onde deveria estar.

Os filósofos gregos tinham um nome para esse instante. Chamavam de encontro com o Belo.

Mas o impulso de representar esse encontro é muito mais antigo do que qualquer filósofo grego.

Há cerca de 25 mil anos, alguém esculpiu em pedra calcária uma figura feminina de onze centímetros, hoje conhecida como Vênus de Willendorf, ou Mulher de Willendorf. Não sabemos o nome de quem a fez, nem a intenção exata por trás do gesto. Sabemos apenas que o gesto aconteceu. E ele diz uma coisa enorme: o ser humano persegue o Belo desde sempre. Muito antes de ter palavras para isso. O impulso de pegar uma pedra e fazer dela um corpo parece ser tão antigo quanto a própria consciência humana.

 

Vênus de Willendorf. Museu de História Natural de Viena.

 

O naturismo entende isso instintivamente. Antes de qualquer argumento filosófico, há o simples reconhecimento de que o corpo humano, tal como veio ao mundo, já é forma. Já é expressão. Já é, em algum sentido que antecede a linguagem, Belo.

Platão acreditava que o Belo não era uma opinião. Era uma realidade tão real quanto a Verdade e o Bem, as outras faces da tríade do absoluto. Quando nos deparamos com algo verdadeiramente Belo, não estamos tendo um gosto pessoal. Estamos reconhecendo algo. Como quem encontra, na névoa, no lusco-fusco, uma forma que já conhecia sem saber.

Isso explica por que o naturismo, para quem o pratica com consciência, tem uma dimensão contemplativa. Não se trata de exibicionismo. Trata-se de eliminar os intermediários entre o ser humano e o mundo; quais sejam: a performance, a imagem, a armadura social que vestimos antes de sair de casa. O naturismo, em seu sentido mais fundo, é um exercício de presença. E presença é o começo do caminho em direção ao Belo.

A arte grega clássica levou esse caminho às últimas consequências. O escultor Policleto, com o Doríforo, criou não um retrato, não uma estátua, mas uma tese: o corpo nu tem uma lógica, uma proporção, uma harmonia que pode ser descoberta e transmitida. Praxíteles fez o mesmo pelo corpo feminino com a Afrodite de Cnido, a primeira escultura de nu feminino em tamanho natural da arte grega, que causou escândalo imediato e fascínio duradouro. O que um estabeleceu para o masculino, o outro reivindicou para o feminino, não sem resistência. O naturismo conhece bem essa resistência.

 

À esquerda está o Doríforo, de Policleto (Museu de Nápolis) e à direita está a Vênus de Cnido, de Praxíteles (Museu do Vaticano).

 

O Renascimento voltou a esses mesmos corpos com olhos novos. Michelangelo, ao esculpir o Davi, retomava a conversa de Policleto dois mil anos depois: o ser humano, tal como veio ao mundo, é grandioso. Não precisou vesti-lo para torná-lo poderoso. Precisou apenas revelá-lo. Botticelli, no Nascimento de Vênus, lembrou que a beleza tem origem e que ela emerge como a deusa do mar, como a consciência que desperta numa manhã e percebe que o mundo é Belo antes mesmo de ter um motivo.

 

À esquerda, o Davi de Michelangelo (Academia de Belas Artes de Florença) e à direita o Nascimento de Vênus, de Botticelli (Galeria Uffizi, Florença).

 

Platão, no Banquete, descreve como o amor pelo Belo funciona. Começa com um corpo. Mas quem persiste percebe que a beleza daquele corpo é aparentada à beleza de outros corpos, depois das almas, das ideias, das obras humanas, até chegar, enfim, ao Belo em si: eterno, que não envelhece, que não depende de luz favorável nem de ângulo certo.

Policleto sabia disso. Praxíteles também. E Michelangelo, e Botticelli, todos passaram a vida tentando capturar em pedra ou tinta aquilo que Platão descreveu em palavras. A mesma coisa que alguém, há 25 mil anos, já tentava segurar nas mãos ao esculpir uma pequena figura em pedra calcária.

Nenhuma dessas obras representa um corpo perfeito no sentido que o mundo moderno aprendeu a usar essa expressão, ou seja, sem imperfeições, sem marcas, sem história… Representam algo muito mais profundo, representam um corpo presente. Inteiro. Que não pede desculpas por existir. É isso que a humanidade persegue há 25 mil anos, e é isso que o naturismo, a seu modo silencioso, continua propondo.

Todo corpo é um caminho. O Belo está em percorrê-lo.

Um corpo humano nu diante do mar…

 

Fonte: Acervo pessoal.

 

*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020. É naturista desde 1997 e é representa o Brasil na CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.