Por Paula Silveira*

Autor: Fabrizio Martins Tavoni é 

Doutorando em Educação na Unicamp, 

Mestre em Ciência Política pela UFSCar, 

Graduação em Ciências Sociais pela UEL

 e é naturista. 

@fbrn_oficial

 

Em um mundo acelerado e digital o equilíbrio emocional deve ser visto como prioridade, mas ainda é um privilégio de poucos. Enquanto a medicalização avança, uma prática antiga ganha novos contornos: o naturismo. Mais do que um estilo de vida, estar nu em harmonia com a natureza tem sido vivido por muitos como uma experiência de cuidado. E embora a ciência ainda não estude o naturismo em si, ela tem acumulado evidências robustas sobre algo adjacente: os benefícios da imersão na natureza para a saúde mental.

O cenário nacional e a urgência do cuidado

A saúde mental dos brasileiros é uma preocupação crescente. Tão crescente que o país conduz, neste momento, sua primeira grande radiografia do tema. A Pesquisa Nacional de Saúde Mental (PNSM-Brasil), do Ministério da Saúde, com execução técnico-científica da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e plano amostral definido pelo IBGE, é o primeiro grande estudo de base populacional voltado a conhecer a situação da saúde mental de pessoas com 18 anos ou mais em todo o território nacional. A coleta de dados segue em campo, e os primeiros resultados são esperados para o fim de 2026.

Ou seja: ainda não temos os números. Mas o simples fato de o Estado mobilizar uma pesquisa inédita dessa magnitude diz muito sobre o tamanho do problema e sobre a urgência de incorporar abordagens complementares e acessíveis ao cuidado.

O que a ciência já comprova sobre a natureza

Uma revisão de escopo conduzida por Gabrielle Abreu Nunes, Emerson Barão Rodrigues Soldado e Teresa Cristina Magro Lindenkamp, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), foi publicada em 2025 na Revista Brasileira de Ecoturismo (v.18, n.1, p.83-98). Partindo de um banco de 211 artigos, os autores selecionaram 67 estudos para análise aprofundada.

O achado é expressivo. Dos 67 estudos analisados, 94% relataram efeitos positivos do contato com a natureza, abrangendo 12 efeitos psicológicos e 5 fisiológicos; cerca de 9% reportaram efeitos neutros, e nenhum efeito negativo foi observado. Entre os benefícios psicológicos mais citados estão a restauração mental, a melhora do humor e a sensação ampliada de bem-estar.

Mas não basta “estar perto” do verde; a qualidade da interação importa. É o que indica a linha de pesquisa do grupo do Prof. Adriano Bressane, na UNESP de Bauru, em estudos com 2.136 participantes da região metropolitana de São Paulo, usando a escala DASS-21 (Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse com análise de 21 itens) para medir depressão, ansiedade e estresse (International Journal of Environmental Research and Public Health, 2024, 21, 585). O resultado: maior e mais frequente contato com a natureza se associou a menores níveis de depressão, ansiedade e estresse. A interação ativa com a natureza, como caminhar, meditar ou simplesmente sentir-se imerso no ambiente, têm um impacto muito maior na redução da depressão e ansiedade do que a mera exposição passiva a áreas verdes urbanas.

Pesquisas indicam que a interação ativa com ambientes naturais está associada a menores níveis de estresse, ansiedade e depressão.

Os achados se repetem fora do Brasil. No Japão, na tradição do shinrin-yoku (banho de floresta), uma série de experimentos de Yoshifumi Miyazaki da Universidade de Chiba, conduzidos com 420 participantes em 35 florestas de todo o país, registrou, em quem permaneceu em ambiente natural, queda de 12,4% no cortisol, o hormônio do estresse, além de reduções na atividade nervosa simpática, na pressão arterial e na frequência cardíaca, em comparação ao grupo de controle urbano (Effect of the forest environment on physiological relaxation: the results of field tests at 35 sites throughout Japan. In Q. Li (Ed.), Forest Medicine (pp. 55-65). Nova Science Publishers). E no Reino Unido, um estudo de grande escala liderado por Mathew White, da Universidade de Exeter, com 19.806 participantes na Inglaterra, mostrou que quem passa ao menos 120 minutos por semana na natureza tem probabilidade significativamente maior de relatar boa saúde e maior bem-estar psicológico do que quem não a frequenta (Scientific Reports, v.9, n.1, p. 1-11, 2019). Curiosamente, não importa se esses 120 minutos vêm de uma única visita longa ou de várias mais curtas.

Do verde à imersão: onde o naturismo pode entrar

Até aqui, falamos de ciência consolidada sobre contato com a natureza. Com roupa. O passo seguinte é um exercício meu baseado nos estudos: a hipótese de que a prática naturista leva essa lógica do contato com a natureza ao limite.

O contato direto com os elementos naturais, água, pedra, temperatura e movimento, constitui uma experiência de imersão que muitos naturistas associam ao bem-estar e à presença corporal.

O naturismo não se resume a “estar nu na natureza”; é uma imersão mais radical. Ao remover as roupas, o indivíduo remove também, simbolicamente, parte das defesas sociais e das pressões estéticas da cultura contemporânea. É, portanto, perfeitamente possível supor que isso favoreça:

Autoaceitação corporal: reduzir a autocobrança e a ansiedade ligadas à imagem.

Estado de presença: o contato direto com o vento, o sol e a terra como âncoras de atenção plena, afastando a ruminação (pensamentos repetitivos que causam mal-estar).

O contato direto com a natureza pode favorecer estados de presença, relaxamento e reconexão consigo mesmo.

Pertencimento e respeito: os espaços naturistas, não sexualizados e pautados pelo respeito mútuo, costumam gerar um forte senso de comunidade, fator associado ao fortalecimento emocional.

Nenhum dos estudos citados mediu nudez. Eles medem imersão na natureza. A ponte entre “imersão ativa no ambiente natural” e “imersão sem roupa” é uma leitura coerente com o que se sabe, mas ainda não testada. E é justamente aí que faço o convite a uma pesquisa abrangente sobre esse tema.

Em meio à natureza, experiências simples podem despertar atenção, presença e encantamento; elementos frequentemente associados ao bem-estar psicológico.

Conclusão

A PNSM-Brasil ainda dirá quanto o adoecemos. Os estudos da Esalq/USP, da UNESP e os internacionais já dizem que a natureza cura e que a forma de se relacionar com ela faz diferença. O naturismo, desprovido de preconceitos, propõe a forma mais inteira dessa relação. A ciência ainda não o nomeia, mas aponta o caminho. Cabe a nós, naturistas e pretendentes a naturistas, sentir na pele o que um dia talvez se confirme em dados: que reconectar-se com a terra é, também, reconciliar-se consigo.

 

*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020. É naturista desde 1997 e é representa o Brasil na CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.