Por Paula Silveira*

 

Autor: José Arispe Rodriguez é Doutor em Estudos 

Contemporâneos das Artes pela UFF. 

Mestre em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT 

e pesquisador do corpo-imagem, 

modernidade e contra-colonialidade.

 É também membro da Associação 

Naturistas da Grande São Paulo (SPNAT) 

@fbrn_oficial

 

Nos dias 13 e 14 de junho de 2026, aconteceu o primeiro evento da Universidade Internacional de Verão do Naturismo (International Naturist Summer University). Um evento acadêmico e híbrido na cidade de Paris, França, organizado pela Federação Naturista Internacional (INF-FNI) e France’s Fédération Française de Naturisme (FFN) no local ESPACE MVG.

O evento reuniu diversos pesquisadores que estudam o naturismo como filosofia de vida. Segundo as palavras do evento, “A nudez é simplesmente o meio para promover a aceitação do próprio corpo, o respeito pelos outros e um estilo de vida mais natural. No entanto, as dimensões filosóficas têm sido frequentemente menosprezadas, a ponto de o naturismo ser muitas vezes reduzido a um mero sinônimo de nudez”. Como artista-pesquisador fiquei interessado em ser parte do evento e conhecer investigações que envolvem o mundo do naturismo. Através de uma simples inscrição consegui uma vaga para assistir e estar virtualmente presente no evento. Foi inaugurado pelo presidente da Federação do Naturismo Internacional, Stéphane Deschênes, quem foi o mediador entre as apresentações, perguntas e debates. No Brasil, o horário do evento teve lugar às 4:00 a.m.; foi um desafio acordar no meio da madrugada para ser parte da atividade, no entanto, valeu a pena o esforço para aprender das apresentações que trouxeram ideias, pesquisas e debates acadêmicos atuais sobre o naturismo. As apresentações foram em inglês e francês, contando com tradução simultânea por meio de legendas. As temáticas foram valiosíssimas, começando por Sönke Reise, presidente da associação GetNakedGermany, quem relatou o trabalho que fazem para poder levar o naturismo na Alemanha diante da UNESCO e propor o FKK (Freikörperkultur) como “Herança Cultural Intangível”. Embora a Alemanha seja um país onde a nudez é aceita em diversos contextos e locais, nunca ingressou em documentos oficiais como um patrimônio cultural desse tipo. 

David Lorenté apresentou sua pesquisa intitulada “A arquitetura naturista existe?” abordando o tema sob a perspectiva do habitat. A partir de uma revisão da necessidade humana na história para criar espaços onde morar, passando por uma antologia de estruturas criadas em diversas regiões naturistas na França, o cenário ficou interessante nas muitas formas nas quais os naturistas intervieram os espaços dependendo do contexto e lugar. 

Matthew Hamon, professor de fotografia trouxe perguntas instigantes sobre as quais ele apresentou uma série de fotógrafos internacionais que trabalham com o corpo nu. Seu interesse é focado nos debates sobre o registro do corpo em imagens neste período especifico do tempo, de redes sociais e fotografia digital. Aponto aqui três perguntas que ele levantou: 

 

“Quais são as melhores estratégias para uma representação visual saudável e positiva da vida e estilo de vida dos naturistas? / O que acontece quando a intenção de normalizar o corpo se depara com uma audiência condicionada a interpretá-lo de outra forma? / As redes sociais são uma plataforma relevante ou importante para a representação do estilo de vida e dos valores naturistas?” 

 

Por outro lado Evan Nicks, o coordenador e comunicador do site Planet Nude, expôs uma história familiar emotiva envolvida no naturismo. Faz alguns anos que ele encontrou um acervo de fotografias e filmes que pertenciam a seu bisavô sobre a comunidade naturista que ele era parte e membro ativo. Foi a partir desse trabalho de coletar, organizar e arquivar aquele material que Evan se interessou pelo naturismo, e hoje divulga e coordena um dos sites mais importantes para o naturismo. Ele compartilhou que o seu acervo naturista é parte do Consórcio de Bibliotecas de Pesquisa sobre o Naturismo, que são cinco bibliotecas independentes nos Estados Unidos que preservam a história do naturismo social. Após as apresentações, fiz uma intervenção mencionando as intenções da Federação Brasileira de Naturismo de organizar, pesquisar e divulgar a história do naturismo no Brasil com um material de acervo valiosíssimo que a federação protege. Evan ficou interessado e animado mencionando que o Brasil tem muito que contar sobre o naturismo. 

 

A Universidade Internacional de Verão do Naturismo (International Naturist Summer University) tem a intenção a se desenvolver como um evento anual em outras partes do mundo. Foi um evento que motiva a continuar pesquisando, levantando questões e pensando o naturismo desde o Brasil. O naturismo não é só despir das roupas, mas também envolve um trabalho de estudo sobre o corpo, história e filosofia interconectadas em eixos com outras diversas disciplinas. É por esse motivo que também comecei a desenvolver um projeto acadêmico-artístico com atravessamentos entre o naturismo, arte, mediação cultural e educação, chamado Laboratório de Mediação Performativa, que já teve uma primeira experiência em maio 2026. Atualmente o registro visual está em fase de pós produção. O vídeo será um dos resultados da pesquisa sobre mediações em espaços culturais e a relação das obras de arte com o corpo despido. Assistir ao evento da Universidade Internacional de Verão do Naturismo foi motivador para continuar pesquisando sobre outros modos de existência. 

 

Conheça mais sobre a Federação Brasileira de Naturismo pelo site www.fbrn.org.br.

 

*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020. É naturista desde 1997 e é representa o Brasil na CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.