Por Paula Silveira*

 

Autor: Fabrizio Martins Tavoni, 

Sociólogo e naturista

@fbrn_oficial

 

Há duas formas de dizer que uma pessoa é sem vergonha: uma sem hífen e outra com hífen. E muitos falantes da língua portuguesa cometem o descuido de usá-las como se fossem uma só. Diz-se que o naturista é sem vergonha. E a frase que muitas vezes quer ferir com o hífen acerta o alvo pela metade: acerta ao descrever, erra ao condenar. Porque há, de fato, uma vergonha que o naturista abandona junto com a roupa, mas há outra que ele leva consigo, muito mais apurada do que a maioria das pessoas vestidas consegue carregar. E entre essas duas vergonhas mora a diferença entre estar nu e ser um sem-vergonha, que a sociedade, no seu hábito de vestir tudo, inclusive os conceitos, insiste em confundir.

Ninguém nasce com vergonha do próprio corpo. A vergonha se aprende e se repete até parecer instinto. O limiar do que envergonha um corpo não é fixo, mas histórico. Desloca-se de século em século, de sociedade em sociedade, de ambiente em ambiente. O que hoje causa rubor, num salão do século XVI seria trivial; o que ali envergonhava, hoje nem notamos. Se a vergonha tem data de nascimento, também pode ter data de revisão. O naturista não inventa um corpo sem vergonha alguma; ele revisita o contrato, questiona a cláusula e devolve ao corpo o direito de não viver um pudor que não escolheu.

Legenda: Antes de esconder o corpo dos outros, aprendemos a escondê-lo de nós mesmos. Foto: Pamela Facco.

 

É aqui que mora o nó do trocadilho. Ser sem vergonha no naturismo não é ausência de todo pudor, mas sim a suspensão de um tipo específico de vergonha: a vergonha-repressão, aquela que nasce do olhar alheio internalizado (que já tratei em outro texto aqui na coluna), do corpo como objeto a ser escondido antes de ser vivido. O naturista despe a roupa, mas não despe o cuidado. Ele troca a vergonha-prisão pela vergonha-bússola (sentido): aquilo que ainda o orienta, que ainda distingue o gesto respeitoso do gesto invasivo. Estar sem vergonha, neste sentido, é uma conquista ética, não uma ausência moral.

Legenda: Despir-se não é abandonar o pudor. É abandonar apenas o medo de existir no próprio corpo. Foto: Pamela Facco.

 

É neste ponto que a comunidade naturista se revela mais rigorosa que a sociedade vestida. Sabemos que toda interação social opera por regras implícitas e que o desviante mais perigoso não é quem rompe a norma abertamente, mas quem finge segui-la para melhor violá-la. O sem-vergonha, para o naturismo, é essa figura: que tem o olhar que sexualiza onde deveria apenas estar, o que aproxima o seu corpo de outra pessoa onde deveria manter distância, o que faz um gesto que transforma o espaço de despojamento em local de assédio. A comunidade naturista não tolera o sem-vergonha: ela o expulsa com mais veemência do que a sociedade vestida expulsa o transgressor disfarçado de “cidadão de bem”.

Legenda: O corpo exposto não é, necessariamente, o mais vulnerável. Muitas vezes, é apenas o mais honesto. Foto: Pamela Facco.

 

Pense bem… Quantas vezes a roupa social (o terno, o discurso da decência, a moral pública) serve exatamente para abrigar o sem-vergonha de verdade? Aquele que, plenamente ‘vestido’, pratica o assédio, o abuso de poder, a violação de confiança, escondido atrás da própria legitimidade que a ‘roupa’ lhe confere (lobo em pele de cordeiro). Enquanto isso, o corpo nu, exposto e indefeso, é o que menos tem onde esconder uma intenção. Há uma inversão moral que vale a pena pensar: o corpo mais vulnerável pode ser também o mais honesto, e a vestimenta mais respeitável, pode ser o esconderijo mais eficiente.

Terminamos onde começamos, mas com o sentido virado: não se trata de abolir a vergonha, mas de recolocá-la em seu lugar certo. Não como cerca que aprisiona o corpo antes mesmo dele se mover, mas como instrumento que orienta o gesto entre o que respeita e o que invade. Ser naturista é, nesse sentido, ser sem vergonha do próprio corpo e absolutamente contrário com o sem-vergonha alheio. A vergonha, purificada de sua função repressiva, sobra exatamente do tamanho necessário: pequena o bastante para não aprisionar, forte o bastante para não permitir que seja violada.

Conheça mais sobre a Federação Brasileira de Naturismo pelo site www.fbrn.org.br.

 

*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020. É naturista desde 1997 e é representa o Brasil na CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.