Por Paula Silveira *

Autor: Raphael Lemos

Advogado, graduado pelo Mackenzie, 

especialista em direito imaterial 

e propriedade intelectual, 

praticante de naturismo desde 2025

@fbrn_oficial 

 

E se o naturismo fosse uma forma de nos libertarmos, ainda que por algumas horas, das prisões que construímos ao nosso redor?

Você já observou um animal em cativeiro andando repetidamente de um lado para o outro, balançando o corpo ou repetindo gestos que dificilmente apresentaria daquela maneira na natureza? Esse tipo de manifestação costuma estar associado a um fenômeno conhecido como zoocose, termo empregado para descrever as alterações de comportamento observadas em animais submetidos às condições do cativeiro. Privados de espaço, de estímulos e da oportunidade de expressar seus hábitos naturais, muitos deles passam a desenvolver padrões repetitivos que costumam ser interpretados como sinal de comprometimento do seu bem-estar.

Diante disso, é difícil não se perguntar se existe alguma semelhança entre essa realidade e a maneira como nós, seres humanos, temos vivido.

As nossas jaulas não têm grades

Acordamos com o despertador, enfrentamos o trânsito e passamos horas em ambientes fechados, diante de telas, cumprindo horários, atendendo a expectativas e repetindo, dia após dia, praticamente os mesmos movimentos, até voltarmos para casa, muitas vezes exaustos, apenas para recomeçar tudo na manhã seguinte.

É claro que a rotina faz parte da vida em sociedade, e trabalhar, assumir responsabilidades e respeitar regras não são, por si sós, formas de aprisionamento. O problema surge quando a nossa existência se reduz ao cumprimento de obrigações e já não sobra espaço para a liberdade, para a espontaneidade e para a conexão com aquilo que nos faz sentir vivos. Talvez as nossas jaulas não sejam feitas de ferro, e sim das expectativas, cobranças, inseguranças e padrões que aprendemos a aceitar sem questionar.

O corpo também pode se tornar uma prisão

Existe ainda outra forma de confinamento, mais silenciosa, que construímos em torno do próprio corpo. Desde cedo aprendemos que certos corpos merecem admiração enquanto outros devem ser escondidos, que envelhecer é um problema, que engordar é sinal de fracasso e que cicatrizes, estrias, flacidez e outras supostas imperfeições precisam ser corrigidas a qualquer custo.

Com o tempo, passamos a enxergar o corpo menos pelo que ele é capaz de sentir e experimentar e mais pela forma como imaginamos que ele será avaliado pelos outros. Aos poucos, aquilo que deveria ser a nossa expressão mais natural se converte em fonte de vergonha, de comparação e de ansiedade, e já nem precisamos de grades, porque o medo do julgamento se encarrega de limitar a nossa liberdade.

E se a natureza fosse parte do caminho de volta?

É nesse ponto que o naturismo oferece uma perspectiva diferente. Ele não deve ser visto como cura, tratamento ou solução para os problemas da vida moderna, e sim como uma experiência capaz de colocar em questão algumas das limitações que impomos a nós mesmos. Praticado em um ambiente seguro, respeitoso e acolhedor, o naturismo nos convida a algo aparentemente simples, mas que pode mudar de forma significativa a maneira como percebemos o nosso corpo.

Sem as roupas que indicam status, marcas ou tendências, somos colocados diante de uma realidade que costumamos esquecer: os corpos humanos são diversos. Há corpos jovens e envelhecidos, magros e gordos, com músculos, cicatrizes, estrias, rugas e tantas outras marcas que fazem parte da experiência humana, e nenhum deles precisa ser padronizado para merecer respeito.

O contato com a natureza, a sensação do sol e do vento sobre a pele e a possibilidade de simplesmente estar presente, sem a preocupação constante com a aparência, tendem a favorecer momentos de tranquilidade, aceitação e reconexão. A nudez não tem nenhum poder terapêutico extraordinário (afirmação incluída a contragosto, mas necessária somente para evitar de me acusarem de charlatanismo!), mas a experiência de vivê-la com naturalidade pode nos ajudar a rever a relação que mantemos com o próprio corpo.

Despir-se é também questionar

Talvez uma das contribuições mais interessantes do naturismo esteja justamente naquilo que ele nos convida a abandonar, ainda que simbolicamente: além das roupas, deixamos de lado por algum tempo a necessidade de corresponder a um padrão, a obrigação de parecer sempre jovem, bonito e bem-sucedido e o receio de sermos vistos como realmente somos.

Isso não quer dizer que esses sentimentos desapareçam no momento em que tiramos a roupa. A insegurança não se dissolve automaticamente, e o naturismo não é uma experiência igualmente confortável para todas as pessoas, sobretudo nas primeiras vezes. Ainda assim, ele pode se tornar um verdadeiro exercício de liberdade, uma oportunidade de perceber que o nosso valor não depende da aparência e que a relação com o corpo pode ser construída a partir do respeito, e não da cobrança.

Talvez precisemos de menos grades, não apenas de menos roupas

A comparação com a zoocose é, evidentemente, uma metáfora, já que as condições de vida dos animais em cativeiro e os desafios psicológicos da sociedade humana são fenômenos distintos. Mesmo assim, a analogia nos provoca com uma pergunta importante: quanto da nossa vida estamos realmente escolhendo viver, e quanto apenas repetimos porque aprendemos que é assim que deve ser?

O naturismo não elimina o trânsito, os compromissos, as pressões profissionais ou as dificuldades emocionais, mas pode oferecer uma pausa, um espaço em que o corpo deixa de ser um projeto permanente de correção e volta a ser simplesmente parte de quem somos. Nesses momentos, não precisamos representar tantos papéis e podemos trocar a comparação pela convivência, a vergonha pelo respeito e o excesso de estímulos pela simplicidade.

Talvez não seja possível abandonar todas as jaulas da vida moderna, mas podemos aprender a reconhecer algumas delas e, quem sabe, descobrir que certas portas sempre estiveram abertas. Se você nunca experimentou o naturismo, fica o convite para conhecer uma praia, um clube ou um espaço naturista, informar-se sobre as regras de convivência e permitir-se viver essa experiência no seu próprio ritmo. Às vezes, a liberdade começa justamente quando deixamos de acreditar que precisamos esconder aquilo que somos.

Conheça mais sobre a Federação Brasileira de Naturismo pelo site www.fbrn.org.br.

Whatsapp: +55 11 99759-5116

*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020. É naturista desde 1997 e é representa o Brasil na CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo da Hungria em 2026, do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.