Por Paula Silveira *

 

Autor: Fabrizio Martins Tavoni, 

Sociólogo e naturista

@fabriziotavoni_profissional

@fbrn_oficial 

 

A única fantasia que não esconde nada.

A decoração começou à tarde. Teias de algodão, atravessadas por luzinhas laranja, subiram para baixo das telhas do quiosque. Morcegos de pano se penduraram nas vigas. Lanternas de papel com bruxas em vassouras balançavam sobre as mesas, e no centro de cada uma havia um pote enrolado em gaze, como uma pequena múmia. Na parede de tijolos, um casal de esqueletos posava para o retrato de casamento: ela de véu, ele de cartola e gravata verde.

Quando a noite caiu, a luz roxa tomou o ambiente. No balcão, uma abóbora de verdade, entalhada à mão, sorria com uma vela acesa por dentro, ao lado de saquinhos de papel com caras de fantasma.

E então os convidados chegaram, irreconhecíveis. Uma vampira de cabelos longos, riscados de branco. Uma abóbora sorridente. Um presidiário de macacão laranja. Um bruxo de cartola, coberto de farrapos brancos. Uma diabinha de chifres vermelhos. Um palhaço de capuz. Uma figura de capa negra e máscara de morcego, que ninguém sabia direito quem era.

E eu, de véu.

Só um tecido branco e fino, da cabeça aos tornozelos. Por baixo, nada além de mim. Alguém riu ao me ver. Eu ri também. Mas, olhando em volta, percebi uma coisa curiosa: era a primeira vez que eu via aquela gente toda tão vestida.

Fantasiar-se é virar outro. No Halloween, a gente acrescenta camadas: tecido, maquiagem, máscara, peruca. Quanto mais coberto, melhor a fantasia. O sucesso se mede pelo quanto ninguém nos reconhece.

Os romanos tinham uma palavra para isso. Persona era a máscara do teatro, aquela por onde a voz do ator soava. Dela veio “pessoa”, não por acaso. Toda roupa do dia a dia já é um pouco de fantasia. O terno diz que somos sérios, o uniforme diz onde trabalhamos, a etiqueta diz quanto podemos pagar. O Halloween só deixa isso explícito por uma noite.

Naquele lugar, porém, a lógica estava de cabeça para baixo. Ali, no resto do ano, a roupa é que é a exceção. Ninguém precisa dela para ser reconhecido. Então, quando todos se vestiram para a festa, a roupa virou fantasia no sentido mais literal: algo que se põe para ser quem não se é.

A minha fantasia fez o caminho contrário. Não acrescentou nada. Tirou. Ficou só um véu, e através dele, o mesmo corpo de todos os outros encontros.

Os outros vieram fantasiados. Eu vim de alma.

Na noite em que os naturistas se vestiram, nem todos esconderam tudo.

Repare na galeria daquela noite. Uma vampira com sangue nos dentes. Um presidiário recém-fugido. Uma diabinha. Um palhaço de sorriso torto, desses que tiram o sono das crianças. Todos sorrindo para a foto, abraçados. Fora do clube, qualquer um deles poderia atravessar uma rua de cidade em outubro sem causar mais que um olhar divertido.

Já um corpo nu, sem máscara e sem sangue, um corpo comum, causaria escândalo na mesma rua. Pode virar caso de polícia.

Aceitamos com naturalidade a encenação da morte, do crime e do demônio. O que não suportamos é a pele.

O sociólogo Norbert Elias mostrou que esse incômodo não é natural. É uma conquista lenta da civilização. Ao longo de séculos, a vergonha foi sendo empurrada para dentro de nós, até parecer instinto. O que antes era corriqueiro (o banho coletivo, o corpo à vista) passou a ser escondido, e depois temido. Goffman completaria: o estigma não está no corpo, mas no olhar que aprendeu a classificá-lo.

Então o Halloween naturista revela uma ironia. Os monstros que inventamos para dar medo são inofensivos. O verdadeiro tabu é o que não precisa de fantasia nenhuma.

E não é o fantasma que assusta; é o que aparece através do véu.

Os monstros que inventamos para dar medo são inofensivos.

O véu me cobria e me revelava ao mesmo tempo. É o que a tradição sempre pediu aos fantasmas: estar ali sem estar inteiro, presença e ausência num mesmo tecido.

O fantasma naturista: transparente por princípio.

Mas o meu fantasma não vinha assombrar ninguém. Não havia provocação no véu, nem desafio, nem a vontade de chocar que o Halloween às vezes autoriza. Eu estava apenas à vontade, como fico em todos os encontros, só que com um lençol fino por cima e um sorriso por baixo.

Essa é a diferença que insisto em marcar. Estar sem vergonha não é ser sem-vergonha. O naturismo não é uma licença para tudo. É uma ética mais exigente, que pede respeito, consentimento e um olhar que não transforma o outro em objeto. Tirar a roupa não acrescenta ousadia. Retira medo, isso sim.

No fim da noite, os vampiros tiraram as presas, o palhaço baixou o capuz, a abóbora voltou a ser gente. Todos foram, aos poucos, reaparecendo.

O fantasma, não. Ele nunca tinha sumido.

Afinal, era a única fantasia que não escondia nada.

*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020. É naturista desde 1997 e é representa o Brasil na CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo na Hungria em 2026 e no México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.