Por Paula Silveira*

 

Autor: Fabrizio Martins Tavoni, 

Sociólogo e naturista

@fbrn_oficial

 

Em muitos contextos, a nudez só se torna aceitável quando passa por algum tipo de mediação. Não necessariamente para esconder, mas para organizar o olhar: enquadrar, suavizar, justificar.

Em um texto recente aqui da coluna, em que disse o porquê sou naturista, duas imagens do mesmo corpo – o meu – foram tratadas de formas distintas. Numa delas, tirada na Praia do Pinho, houve uma intervenção: um “X” branco foi aplicado sobre a região genital. Em outra, produzida em estúdio pela fotógrafa Pamela Facco, com composição mais controlada e intenção artística evidente, não houve qualquer tipo de cobertura ou desfoque. É verdade que esta foto não era frontal, foi feita em P & B e com jogo de sombra; mas parte do pênis ficava exposta.

A diferença é sutil, mas diz muito sobre quando cobrir e quando não cobrir. E nem quero dizer com isso que a foto na praia naturista não deveria ter o genital coberto; por ser um site de opiniões e notícias dos mais variados tipos e com os mais diversos tipos de leitores, no atual estágio de desenvolvimento da nossa sociedade entendo perfeitamente a necessidade dessa intervenção.

E penso também que não se tratou de um erro técnico ou de uma falha de edição a não intervenção na outra. Trata-se de algo mais interessante: a forma como o corpo é interpretado a partir do contexto em que aparece.

Vale dizer que aquele foi o primeiro texto para o qual enviei fotos minhas à publicação. E, na hora de escolhê-las, não me passou pela cabeça o uso de tarjas, ângulos que ocultassem o genital ou qualquer outro recurso de cobertura. Simplesmente selecionei as imagens que me pareciam boas para o contexto do escrito e as enviei para a Paula. Para mim, naturista que sou, era apenas o meu corpo, não havia ali nada a administrar. A preocupação com o que mostrar e o que ocultar não surgiu comigo, no gesto de fotografar ou de enviar: ela veio depois, nas camadas de mediação que o corpo atravessa até chegar ao leitor.

Legenda: Nem nu, nem vestido: apenas atravessando a fronteira que a sociedade insiste em vigiar.

 

Existe um conjunto de expectativas silenciosas sobre como os corpos devem ser vistos e, principalmente, legitimados. Forma, proporção, enquadramento, intenção. Tudo isso opera como uma espécie de filtro que organiza não apenas o que pode ser visto, mas como deve ser visto.

Nesse sentido, a distinção entre o corpo cotidiano e o corpo artístico não é pouca coisa.

O primeiro, mesmo quando inserido em um ambiente naturista, ainda carrega a marca de algo que precisa ser administrado. É um corpo ‘real’, fora de uma moldura estética ou com proposta artística que o justifique. Já o segundo, ao se aproximar da linguagem artística, parece ganhar uma espécie de autorização simbólica para existir sem mediação.

Como se a arte tivesse o poder de neutralizar para algumas pessoas aquilo que, em outros contextos, ainda é tratado como excesso.

Legenda: Fotos publicadas no artigo “Por que sou Naturista?” em 08 de abril de 2026.

 

O naturismo, por sua vez, ocupa uma posição interessante nessa equação. Ele propõe a nudez como condição primordial, desprovida de intenção estética ou performática. O corpo não precisa ser belo, nem simbólico, nem representativo. Ele apenas é.

E é justamente neste ponto que surge algo interessante. Pois, sem a mediação da arte, o corpo naturista permanece mais exposto ao desconforto do olhar social, mesmo que sem intenção perceptível desse desconforto. Há uma tolerância, até inconsciente, um pouco maior com o corpo-arte; mas mesmo em espaços onde a nudez é permitida, há frequentemente mecanismos, explícitos ou implícitos, que procuram moderar sua visibilidade quando ela ultrapassa certos limites de circulação.

A nudez, portanto, não é simplesmente proibida ou permitida. Entre esses dois extremos há toda uma gradação de controle: o que se mostra, o quanto se mostra, sob qual moldura e com que tratamento. É essa regulação fina, e não o veto puro e simples, que ganha novas camadas no ambiente digital.

Grandes plataformas tecnológicas operam hoje como mediadoras centrais do que pode ou não ser visto. Ainda que digam reconhecer exceções para contextos artísticos, educativos ou informativos, na prática essas distinções são frequentemente inconsistentes e atravessadas por interesses econômicos.

Corpos são removidos, ocultados ou ‘despriorizados’ não apenas por critérios morais, mas também por sua capacidade de gerar engajamento dentro de parâmetros considerados seguros para anunciantes.

 

Nesse cenário, a nudez que permanece é, muitas vezes, aquela que já se encontra adaptada à lógica da plataforma: sugerida, estetizada, enquadrada de forma a não interromper o fluxo de consumo.

A nudez que escapa disso, seja ela naturista, artística ou simplesmente cotidiana, tende a encontrar mais resistência.

Isso torna ainda mais relevante a existência de espaços como este no Portal Som de Papo, onde o corpo pode aparecer fora dessas lógicas, ainda que sob mediações imperfeitas. Portais, revistas, ensaios e iniciativas que mantêm viva a possibilidade de uma nudez não reduzida à performance, à sexualização ou ao lucro cumprem um papel importante na ampliação deste debate.

Mesmo quando recorrem a ajustes, cortes ou coberturas parciais, esses espaços já operam em uma zona de tensão: entre o que pode ser mostrado e o que ainda precisa ser negociado. Mas sobretudo, esses espaços operam com muita coragem.

É nesta tensão que a questão do debate sobre o corpo nu se revela com mais clareza. Existe um conjunto de expectativas silenciosas sobre como os corpos devem ser vistos e, infelizmente, avaliados: forma, proporção, adequação. Tudo isso opera como uma régua invisível que organiza o olhar. Não é só a nudez que está em jogo, mas a comparação, o julgamento, o (falso) moralismo e a tentativa constante de enquadrar o corpo em padrões que raramente são assumidos como tais. Sendo que, no caso das mulheres, esse controle é historicamente ainda mais intenso e explícito.

O curioso é que, em todos esses contextos, trata-se sempre do mesmo corpo humano. Mas que não é percebido da mesma maneira. Porém o problema nunca é (ou foi) o corpo em si, mas a dificuldade de lidar com ele quando não há uma moldura que nos diga como olhar.

Com isso, a nudez é um dos poucos casos de ‘segredo’ que todos sabem, mas que ainda assim, insistem em não poder ser plenamente vista.

Conheça mais sobre a Federação Brasileira de Naturismo pelo site www.fbrn.org.br.

 

*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020. É naturista desde 1997 e é representa o Brasil na CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.