Por Paula Silveira*

 

Autor: Fabrizio Martins Tavoni, 

Sociólogo e naturista

@fbrn_oficial

 

No texto anterior (O corpo permitido), deixei uma porta entreaberta. Disse que, mesmo depois de atravessar as plataformas, os algoritmos e as ferramentas que insistem em recusá-lo, o corpo ainda desemboca em um último filtro: o olhar de quem o vê. A régua que decide o que pode aparecer trocava de mãos: deixava a infraestrutura e passava às pessoas. É por essa porta que quero entrar agora.

Porque esse olhar que mede não é neutro, nem improvisado, nem igualmente distribuído. Ele tem história. E, sobretudo, tem gênero. Quando alguém observa um corpo nu – sua forma, sua proporção, sua adequação a um padrão que raramente se admite -, não está exercendo uma reação espontânea da natureza. Está repetindo um modo de olhar que foi ensinado, treinado e socialmente construído ao longo de séculos. Um modo de olhar que aprendeu, antes de tudo, a vigiar o corpo da mulher.

Há mais de cinquenta anos, o crítico inglês John Berger formulou uma distinção que continua desconfortavelmente atual. Em Modos de Ver, ele escreveu que os homens agem e as mulheres aparecem. Os homens olham para as mulheres; as mulheres se veem sendo olhadas. Não se trata apenas de uma diferença de comportamento, mas de uma assimetria que organiza toda a relação com o próprio corpo: a mulher cresce aprendendo a se observar de fora, a antecipar o olhar alheio, a ser ao mesmo tempo a paisagem e o vigia que a inspeciona.

 

Legenda: Há corpos que caminham pela natureza. Outros ainda precisam atravessar séculos de vigilância. Foto: José Arispe

 

Essa é uma das formas mais antiga da régua invisível. Antes de qualquer plataforma, antes de qualquer algoritmo, já existia um dispositivo que ensinava certos corpos a se medirem continuamente. A mulher que se arruma diante do espelho não está apenas se vendo: está calculando como será vista. Ela incorporou o avaliador. Carrega-o consigo, mesmo quando ninguém a observa.

E o que esse avaliador interno cobra? Forma, proporção, adequação. As mesmas expectativas silenciosas que pesam sobre todos os corpos, mas que sobre o corpo feminino se aplicam com uma minúcia e uma constância sem igual. A pele, a idade, o peso, a postura, enfim, cada detalhe é convertido em objeto de escrutínio, comparado a um padrão que quase nunca se enuncia como tal, porque finge ser apenas ‘bom gosto’ ou ‘boa aparência’. A régua se disfarça de natureza.

Poucos anos depois de Berger, a teórica de cinema Laura Mulvey formalizou um nome a esse mecanismo: olhar masculino (male gaze). Estudando o cinema clássico, Mulvey percebeu que a câmera, a narrativa e o próprio prazer de assistir estavam organizados em torno de uma posição masculina, que é aquela que olha, deseja e controla, enquanto à mulher cabia o papel de ser olhada, de existir como imagem destinada a esse olhar. O termo se espalhou para muito além das telas, porque descreve algo que está em toda parte.

Desse modo, o olhar masculino não é o olhar dos homens; é um conceito. Um lugar estruturado de onde se vê, e que qualquer pessoa, homem ou mulher, é convidada ou treinada a ocupar. Quando uma mulher avalia o corpo de outra mulher com a mesma régua impiedosa, não está traindo seu gênero: está ocupando a posição que a cultura ofereceu como a única disponível para olhar. O olhar masculino independe de homens para funcionar. Ele já está no espelho, na legenda, no comentário, na fração de segundo em que decidimos se um corpo ‘se dá ao respeito’ ou não.

 

Legenda: Nenhum sorriso deveria depender da autorização para existir no próprio corpo. Foto: José Arispe

 

E aqui a assimetria se torna ainda mais nítida. O corpo masculino, quando aparece nu, raramente é submetido a esse escrutínio total. Pode ser avaliado, claro, mas não carrega o mesmo peso histórico de vigilância, a mesma sensação de que cada centímetro quadrado de pele está em julgamento permanente. Um homem que mostra o corpo despido arrisca, no máximo, a ser alvo de uma piada. Uma mulher que mostra o corpo arrisca sua reputação, sua respeitabilidade, o seu lugar. O mesmo gesto, despir-se diante de uma câmera ou numa praia, não pesa igual sobre os dois.

 

Legenda: Quando ninguém vigia o corpo, sobra espaço para viver. Foto: Gildo Mazza

 

E, no entanto, trata-se sempre do mesmo corpo humano. A mesma pele, os mesmos contornos, a mesma matéria viva que respira e envelhece. O que muda não está no corpo: está no olhar que o recebe e na história que esse olhar carrega sem saber que carrega.

Um corpo feminino nu raramente é visto como simplesmente um corpo nu. Ele chega ao olhar já atravessado por séculos de pintura, de publicidade, de moralidade, de desejo e de interdição; uma espessura de significados que se interpõe entre o espectador e a pessoa. Antes de ser uma mulher numa praia, ele é uma imagem que dialoga com todas as imagens de mulheres que já existiram. O corpo masculino, mais raro nessa longa tradição de exposição, ainda goza de uma relativa transparência. E essa transparência é um privilégio que quem o possui quase nunca percebe.

É por isso que falar de uma ‘nudez naturista’, pura e sem segundas ou terceiras intenções, é mais simples para uns do que para outros. A promessa do naturismo como o corpo enquanto apenas um corpo, livre da carga do julgamento, não chega igualmente a todos. Para o homem, despir-se pode ser um gesto de autenticidade quase imediato. Para a mulher, o mesmo gesto precisa primeiro abrir caminho através de toda uma muralha de olhares prévios, de advertências internalizadas, de riscos que não são simétricos. A porta do naturismo está aberta para os dois, mas o corredor que leva até ela é muito mais longo para ela do que para ele.

Há uma frase que me persegue desde que comecei a pensar nesses dois textos: a nudez é, possivelmente, o único caso de segredo que todos conhecem. Não há nada a revelar sob a roupa que cada um de nós já não saiba de antemão. E, mesmo assim, ela insiste em não poder ser plenamente vista.

Agora, porém, parece-me que esse segredo tem uma cláusula que eu não tinha notado. Não é que a nudez não possa ser vista, acontece que ela não é vista da mesma maneira, nem cobra o mesmo preço de quem a oferece. O que se esconde sob a roupa não é o corpo, que todos conseguimos imaginar sem grande esforço. É a possibilidade de que esse corpo seja olhado sem a régua, sem a comparação, sem a moldura que o gênero impõe ao olhar antes mesmo que a pele apareça.

 

Legenda: O naturismo abre uma porta. O olhar despido ainda é um caminho. Foto: José Arispe

 

Essa é a nudez verdadeiramente difícil de alcançar. Não a do corpo despido, que qualquer praia oferece, mas a do olhar despido; um olhar que consiga ver um corpo, qualquer corpo, sem séculos de vigilância pesando sobre ele. Esse olhar ainda não existe, ou existe apenas em lampejos. Mas é para ele que se deve trabalhar: não apenas pelo direito de mostrar o corpo, conquistado a duras penas; mas sobretudo pelo direito, bem mais raro, de ser visto sem ser rotulado ou invalidado.

Conheça mais sobre a Federação Brasileira de Naturismo pelo site www.fbrn.org.br.

 

*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020. É naturista desde 1997 e é representa o Brasil na CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.