Por Paula Silveira *
Autores: Fabrizio Martins Tavoni é Doutorando em Educação na Unicamp,
Mestre em Ciência Política pela UFSCar e naturista.
@fbrn_oficial
A pergunta que mais ouço de quem nunca pisou num espaço naturista é: “diga a verdade, tem muito sexo?” E vem sempre num tom meio de cochicho, meio de ‘gracinha’, como se estivesse revelando um segredo ou desconfiando de algo. E eu entendo. Para muitos, há uma aura de mistério em torno de pessoas que tiram a roupa em público; algo que a imaginação popular rapidamente associa à liberdade sexual, à provocação, à sedução e ao “vale tudo”. A nudez, na nossa cultura, é ensinada como algo que se esconde, e quando alguém decide não esconder, o outro automaticamente suspeita: lá deve haver um prazer proibido, uma transgressão, uma festa secreta, liberal. Mas não. Não é sobre isso. Ao longo do tempo fui construindo uma resposta pessoal para essa pergunta recorrente: o naturismo não é sobre estar nu. É sobre não ser vigiado. E a diferença entre essas duas coisas é maior, e mais radical, do que parece.
O olho que nos vigia o tempo todo
Há alguns anos, li um livro chamado “Vigiar e Punir”, do filósofo Michel Foucault. Ali ele descreve um projeto arquitetônico do século XVIII: o Panóptico, um tipo de prisão circular com uma torre central. Dali, um único guarda podia observar todos os presos em suas celas, sem que eles soubessem se estavam sendo vigiados naquele exato momento. O resultado era que os presos internalizavam o olhar do guarda. Comportavam-se como se estivessem sempre sendo observados, mesmo quando a torre estava vazia.
O que Foucault percebeu é que essa lógica escapa dos muros da prisão. Ela está nas escolas, nos quartéis, nas fábricas, nos escritórios. E, mais do que isso, está dentro de nós. Aprendemos a nos vigiar o tempo todo, a agir como se houvesse um olheiro invisível julgando cada um dos nossos movimentos.
Nós, seres humanos do século XXI, somos especialistas nessa autocobrança. Andamos alinhados para não parecermos curvados. Encolhemos a barriga ao passar por um espelho. Cruzamos as pernas de um jeito que a sociedade considera “apropriado”. Evitamos olhar demais para o outro para que não pensem algo errado sobre nós. E tudo isso acontece mesmo quando não há absolutamente ninguém nos observando.
O guarda está na nossa cabeça.
O corpo vigiado antes mesmo de sair de casa
Quando pensamos em tirar a roupa em público, esse guarda interno entra em pânico. Ele dispara uma sirene silenciosa: “E se olharem para o meu corpo? E se julgarem minha gordurinha? E se apontarem para minhas estrias? E se rirem do meu pênis? E se cochicharem sobre minha celulite? E se…”
Não é a nudez em si que assusta. É o olhar do outro sobre a nudez. A prova disso é que a maioria das pessoas fica nua em casa, no banho, ao trocar de roupa, sem nenhum constrangimento. O desconforto só aparece quando há a possibilidade de testemunhas. O problema, portanto, não é o corpo, é a plateia.
O naturismo, então, não é um convite para mostrar o corpo. É um convite para tentar desligar, ainda que por algumas horas, essa vigilância que nos acompanha desde a infância. A praia naturista, o clube, o espaço de convivência sem roupas: tudo isso funciona como um laboratório onde se ensaia a suspensão do olhar julgador.
Mas há um detalhe crucial: esse laboratório não é mágico. Ele não apaga de uma só vez décadas de aprendizado social.
O naturista também carrega o vigia interno
Aqui convém um exercício de honestidade. É comum que novatos no naturismo, quando em praias ou clubes agindo de um jeito que revela o quanto ainda estão presos ao Panóptico. Passam os primeiros minutos, ou até horas, com os braços cruzados sobre o peito. Sentam-se de pernas firmemente fechadas, agarram-se às cangas como se estas fossem um salva-vidas. Desviam o olhar para o horizonte, como se qualquer movimento dos olhos pudesse ser interpretado como assédio.
E isso não é uma crítica. Alguns naturistas, mesmo depois de anos de prática, ainda tem o guarda interno à espreita, apenas mais silencioso. De vez em quando ele sussurra: “Será que olhei demais para aquela pessoa?” ou “Será que minha posição está relaxada demais, está passando uma interpretação errada?”

O corpo se despe rápido. O olhar que julga, nem tanto.
O naturismo, portanto, não é um estado de liberdade conquistado para sempre. É uma prática diária de desaprender a vigilância. Cada ida à praia é um pequeno ensaio: hoje vou tentar não cruzar os braços; hoje vou tentar não pensar em como os outros me veem; hoje vou tentar apenas existir, sem justificar minha existência.
E é aí que mora a diferença fundamental.
Nu, mas ainda preso
Uma pessoa pode estar completamente nua e ainda assim continuar vigiada. Basta que ela esteja preocupada com o olhar alheio. Basta que ela contraia o abdômen ao passar perto de um grupo. Basta que ela se sinta desconfortável ao se sentar de pernas um pouco mais abertas. A nudez, sozinha, não liberta ninguém. Ela apenas retira o tecido que cobre a pele. O que precisa ser retirado é mais profundo: é a camada de medo, de vergonha antecipada, de ensaio mental do julgamento do outro.
O que o naturismo realmente ensina
O naturismo, bem praticado, não é sobre tirar a roupa. É sobre perceber que a roupa não protege de nada. Ela não protege do julgamento; porque o julgamento continua ali, mesmo de calça social e gravata ou em um vestido de gala. Ela não protege da vergonha; porque a vergonha é uma construção interna, não uma propriedade do corpo nu. Ela não protege da vigilância; porque o guarda continua na torre, estejamos vestidos ou não.
O que o naturismo oferece é um espaço controlado, seguro, onde podemos experimentar o que acontece quando abaixamos as defesas. E a descoberta, para quem persiste, é sempre a mesma: ninguém estava olhando. Ninguém se importava com a sua celulite. Ninguém reparou que você ficou três ou cinco minutos sem cruzar as pernas. O guarda está de folga.
O espaço naturista é, no fundo, um grande espelho coletivo. Cada um chega preocupado achando que será o centro das atenções e descobre, aliviado, que ninguém veio para ver você. Vieram para não serem vistos. Vieram para desligar, por algumas horas, o Panóptico que carregamos na cabeça.

Quando ninguém está olhando, o corpo finalmente descansa. Foto: Joseph Art
A nudez sem vigilância é que liberta
Volto à pergunta inicial que me fazem, assim como também a outros naturistas: naturismo é sobre sexo? Não. Nunca foi. É sobre perceber que a associação entre nudez e sexo é uma das formas mais eficientes de vigilância social. Enquanto você acreditar que o corpo nu é intrinsecamente sexual, você continuará se vigiando, se cobrindo, se desculpando por existir em pele.
O naturismo é aquilo que desmonta essa armadilha. Ele diz: o corpo nu pode ser apenas um corpo. Pode estar sentado na areia olhando o mar. Pode estar jogando vôlei. Pode estar dormindo ao sol. Sem segundas intenções, sem performance, sem medo.
E quando você finalmente experimenta isso, quando você fica nu em público e percebe que ninguém está nem aí, que ninguém te reduziu a um par de seios ou a um pênis, que ninguém te vigiou, você leva essa lição para fora da praia. Você começa a desconfiar que talvez possa usar um short mais curto, ou um maiô mais cavado, ou simplesmente andar com a barriga para fora sem pedir desculpas.
O naturismo não é sobre estar nu. É sobre não ser vigiado. E quando você desiste de vigiar a si mesmo, descobre que nunca houve guarda algum.
Só você.

Quando ninguém se destaca, ninguém precisa se esconder. Foto: Joseph Art
Fabrizio Martins Tavoni é Sociólogo, Cientista Político e naturista. Já não cruza mais os braços na praia; pelo menos não por vergonha.
*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020.É naturista desde 1997 e é integrante da CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, na Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.
Mídias sociais: @fbrn_oficial
Whatsapp: +55 11 99759-5116