Por Paula Silveira*

 

Autor: Fabrizio Martins Tavoni é 

Doutorando em Educação na Unicamp, 

Mestre em Ciência Política pela UFSCar, 

Graduação em Ciências Sociais pela UEL

 e é naturista. 

@fbrn_oficial

 

Na noite de 29 de maio participei, junto com alguns amigos naturistas, de um laboratório performativo conduzido por José Arispe na exposição Contaminações: um gesto artístico coletivo, realizada na galeria Torttto, em Pinheiros, São Paulo. A proposta era simples e, ao mesmo tempo, radical: os participantes deveriam circular nus pela galeria, observando as obras expostas e interagindo com o espaço enquanto câmeras distribuídas pelo ambiente registravam a experiência.

O laboratório era apresentado como uma investigação atravessada por três eixos, o experimental, o lúdico e o performativo, buscando criar conexões alternativas entre público e obra. Na prática, isso significava dissolver fronteiras normalmente consideradas estáveis. O visitante deixava de ser apenas observador. Tornava-se participante. E mais do que participante: tornava-se matéria de uma nova obra em construção.

Enquanto observávamos os trabalhos expostos, também éramos observados pelas câmeras. Enquanto interpretávamos a exposição, passávamos a integrá-la. O público tornava-se parte daquilo que contemplava.

Essa dinâmica dialogava diretamente com a proposta curatorial de “contaminação”. Não apenas as obras contaminavam umas às outras. Também se contaminavam as categorias de artista, público, performance e exposição. A obra deixava de estar confinada aos objetos pendurados e expostos e passava a incluir os corpos presentes no espaço. Para Juan Sebastian, um dos participantes, a experiência foi marcada justamente por essa convergência: “foi uma experiência única estar rodeado de arte enquanto nu, especialmente porque as obras de arte focavam na figura humana.”

A nudez ocupava um lugar central nesse processo. Entretanto, não da forma que um observador externo imaginaria.

Vivemos em uma sociedade na qual o corpo nu é frequentemente tratado como exceção. Seja pela sexualização, seja pelo constrangimento moral, a nudez tende a monopolizar o olhar. Em contextos cotidianos, um corpo nu costuma ser percebido antes da pessoa que o habita. No laboratório, porém, ocorreu algo diferente.

Após os primeiros minutos, a nudez deixou de ser o aspecto mais importante da experiência. Os participantes não estavam reunidos para observar corpos nus. Estavam reunidos para viver uma experiência artística. Aos poucos, as conversas, os deslocamentos, as obras, as emoções e as interações passaram a ocupar o primeiro plano da percepção.

A nudez tornou-se invisível. Não invisível porque deixou de existir, mas porque deixou de ser o centro da atenção. O corpo nu deixou de ser um acontecimento para tornar-se uma condição do ambiente. Assim como as paredes da galeria, a iluminação ou os sons presentes no espaço, ele simplesmente estava ali. Paula Silveira, presidente do SPNat (Naturistas da Grande São Paulo) e da Federação Brasileira de Naturismo, traduziu bem esse estado ao falar em estar “sem filtros”: quando as roupas saem de cena, o que aparece não é a nudez em si, mas a presença das pessoas, inteira, direta, sem mediação.

Esse fenômeno possui uma dimensão fenomenológica profunda. O corpo deixa de ser objeto de observação e retorna à sua condição primordial de instrumento da experiência. Não estamos diante do corpo; estamos no corpo. Não observamos o mundo apesar dele, mas através dele.

Uma das descobertas mais significativas do naturismo é justamente a percepção de que a nudez, quando normalizada, perde sua capacidade de monopolizar a consciência. O que emerge então não é a ausência de roupas, mas a presença das pessoas. Zé Monteoliva, participante e naturista, reconheceu no laboratório esse mesmo território: “é sempre bom estarmos abertos a novas interações artísticas”, disse, celebrando também o reencontro com amigos da comunidade naturista no espaço da galeria.

Entretanto, o laboratório de José Arispe não era propriamente uma atividade naturista. Seu objetivo não era promover uma filosofia de vida nem defender uma determinada relação com o corpo. A nudez funcionava como um dispositivo artístico. Ainda assim, o experimento revelou algo que o naturismo conhece bem: quando as roupas deixam de organizar as relações sociais, outras formas de encontro se tornam possíveis.

Nesse sentido, a experiência também dialoga com questões centrais da cultura contemporânea. Vivemos cercados por imagens, identidades cuidadosamente construídas e estratégias permanentes de apresentação de si. As roupas participam desse processo. Elas comunicam pertencimentos, posições sociais, estilos de vida e expectativas.

Ao retirar essas camadas simbólicas, o laboratório criava uma espécie de suspensão temporária das classificações habituais. Não eliminava as diferenças entre as pessoas, mas alterava a forma como elas eram percebidas. Sérgio Bigarani, frequentador assíduo de museus e bienais, captou bem essa singularidade ao distinguir o que viu ali da arte que “passa por diversas curadorias até chegar a um museu”: tratava-se, nas suas palavras, de “a arte do nosso tempo e da nossa realidade”: espontânea, sem patrocínio, nascida diretamente da experiência.

Essa abertura ao experimental não teria sido possível sem a escuta da galeria Torttto. Viv Turini, Marú e Quod – artistas e curadores responsáveis pelo espaço – não foram apenas anfitriões: foram participantes. Ao final, suas reações disseram mais do que qualquer avaliação formal. “Foi muito massa”, escreveu Quod. “Eu amei demais! Foi um prazer! Vida longa ao projeto!”, celebrou Viv. Marú completou: “Eu amei participar também!! Obrigado demais pela experiência, quero acompanhar as próximas.” O próprio José Arispe, ao agradecer ao grupo, anunciou o início da etapa de pós-produção das imagens. A obra, portanto, continua sendo feita.

Um detalhe não passou despercebido por Viv Turini, Marú e Quod. Com certa surpresa e bom humor, notaram como os naturistas do grupo tiraram as roupas de forma imediata: sem procurar um canto reservado, sem hesitação, no lugar exato onde estavam. Um gesto pequeno que revelava muito a diferença entre quem convive com a nudez como exceção e quem a vive como normalidade.

Para mim, essa experiência possui ainda uma outra dimensão. Cresci em uma cultura na qual a nudez era cercada por constrangimentos e interdições. Ao longo dos anos, o contato com o naturismo transformou profundamente minha percepção do corpo, da convivência e da vulnerabilidade. Participar desse laboratório significou encontrar um novo território para essa reflexão: não a praia, a associação ou o espaço naturista, mas a galeria de arte.

Ali, o corpo nu deixou de ser apenas uma prática social e tornou-se também uma linguagem estética.

Ao final da noite, saí com a impressão de que a obra produzida por José Arispe não estava apenas nas imagens registradas pelas câmeras. Ela existia também nas relações construídas entre os participantes, nas conversas, nos deslocamentos e nos sentidos compartilhados durante aquelas horas. Juan Sebastian falou em “espaço para a liberdade de expressão”. Paula, em participar “ao natural”. Sérgio pediu que “venham novos laboratórios de mediação Performática”. Cada um trouxe um olhar; e todos, juntos, compuseram algo que nenhuma câmera capturou sozinha.

Um desdobramento inesperado confirmou que algo havia de fato se passado naquela noite: Viv, Marú e Quod, ao saberem do SPNat, manifestaram interesse em participar de encontros do grupo. “Quero sim”, disse Quod. “Eu tenho interesse também”, respondeu Marú. Viv foi direta: “Muito dentrooo.” A galeria que acolheu a nudez como linguagem artística se abria agora para vivê-la também como prática.

A verdadeira contaminação proposta pela exposição aconteceu quando deixamos de ser apenas espectadores e passamos a habitar a obra com nossos próprios corpos. E quando a obra, generosa, seguiu a nos habitar.